quarta-feira, 18 de julho de 2012

Martha Medeiros, "Strip-Tease".

            Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender. Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis.
            Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou.
            Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
            Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
            Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
            Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
            Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
            Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".
            Por fim, a última peça caía, deixando-a nua "Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".
            E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Carlos Drummond de Andrade, "Carta".


            Há muito tempo, sim, que não te escrevo. Ficaram velhas todas as notícias. Quem sabe até a máquina já enferrujou, ou meus dedos não tenham o mesmo ritmo. E o meu café, certamente, há muito esfriou.
            Tenho perambulado por estas ruas, na penumbra azulada do crepúsculo, de mãos nos bolsos e testa franzida. A brisa que me abraça nessas idas e vindas noturnas é gélida e pesada, e faz-me sentir com ombros úmidos e sobrecarregados.
            Tenho visto pouca gente. A não ser por meus passeios de coruja, quando os faróis dos carros que infestam essa cidade não cegam meu campo de visão, ainda conservo meus hábitos de eremita urbano, conservando meu ostracismo social que sempre me foi tão característico. A memória já é uma companhia demasiado sórdida para precisar de outro alguém.
            Sim, ainda tenho noites insones, pelas quais adquiri essas auréolas arroxeadas em torno dos meus já meio exânimes olhos.
            Ainda gosto de mocca. Tenho as xícaras de metal. O cobertor marrom. A vista para a avenida. Os volumes empoeirados de Bee Gees. E, agora, mais saudades de ti.