terça-feira, 11 de setembro de 2012

"You're gonna make me lonesome when you go", Bob Dylan.


            Sofro de dor compartilhada. Você chora e meu primeiro reflexo é estender-lhe os braços e oferecer-lhe meu calor. Mesmo com todos esses quilômetros que nos distanciam. Parece tão óbvio, mas não é assim que sinto. A sua dor é a minha dor, mesmo que a causa do seu choro para mim seja desconhecida. Eu não sabia do ocorrido até hoje, mas isso explica os maus pressentimentos do meu tempestuoso domingo. O aperto insanamente familiar no coração. As vertigens que me deixaram desnorteada por longos minutos, várias vezes. Você sofria e meu corpo, de alguma forma, captava seus sinais.
            Não é a primeira vez que te sinto aqui de longe. Já é usual imaginar a sua mão tocando a minha, quando me deito sozinha em uma noite qualquer. Olhar para o céu e, ao perceber qualquer brilho esverdeado, lembrar seus olhos. Porém, imaginar a cena de seus olhos lacrimejando de dor é a pior das angústias. Infelizmente, eu tão longe não posso acolher suas lágrimas em meus dedos para nunca deixa-las molhar seu rosto. O único merecedor de ser acolhido por sua face é o seu sorriso.
            Agora eu sei que quando você foi embora a minha trilha inconsciente era puramente dylanesca. Mas te verei no céu acima, na grama alta, naqueles que eu amo. Eu ainda te vejo por aí, mesmo às vezes estando muito distraída para, quem sabe, te ver passar. E em algum canto do meu ser eu reconheço: você ainda domina uma parte muito grande de mim.
            Você me fez muito solitária quando partiu.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Você.


            O seu jeito é o meu maior vício. Sabe, esse jeito manhoso de se aproximar, de falar ao ouvido. O jeito como você me leva para debaixo das estrelas, para me distrair e poder tocar em mim enquanto me orienta pelos pontos cardeais – eu sempre fui péssima em Geografia! O seu jeito de chegar repentinamente e beijar meu pescoço que, como eu mesma já declarei, sempre me pega desprevenida e me arrepia dos pés à cabeça. Esse jeito de fazer tudo errado e dar tudo certo, sem ter razão nenhuma, apenas me conquistando pelos argumentos. Esse seu jeito de me desencontrar, me encontrar por acaso, me perder e me deixar, para depois voltar, com seus olhinhos de cachorro sem dono, e derreter meu coração por completo. E, apesar de me destruir aos poucos, remoer minhas entranhas, tirar meu sono e revirar meus sentimentos, eu quero esse teu jeito para sempre, só para mim.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Martha Medeiros, "Strip-Tease".

            Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender. Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis.
            Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou.
            Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
            Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
            Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
            Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
            Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
            Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".
            Por fim, a última peça caía, deixando-a nua "Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".
            E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.